15 Dias, 15 Diretas

Ideias Aleatórias

11 Dezembro 2018

Anda à solta algures por aí uma versão mais jovem de mim a romantizar a ideia de fazer directas. Movimenta-se maioritariamente entre bancos do metro, secretárias riscadas e filas para tirar café. Veste-se de preto para a ocasião de não dormir e tem olheiras até aos pés. Se a virem, dêem-lhe um Xanax por mim.

Café pela manhã, pela tarde e pelo fim do dia

Este horário de sono invertido — ou inexistente — adotei-o pelo fruto de um culminar de situações, do qual participam alguns personagens e pontos de vista.

O primeiro destes foi um professor. Design I era lecionado um professor chamado Luís Mendonça. Na primeira aula a que fui, ele tinha posto um grande quadro branco a bloquear a porta do lado de dentro, onde se lia

"A aula começa às 08:59."

No horário a aula era às 10h. Rapidamente viríamos a combinar ser às 9h. No entanto, todos sabíamos: a aula começa às 08:59. Isto tornar-se-ia numa pequena amostra da maneira como o ano se iria desenrolar. Este professor tinha por hábito pedir trabalhos de um momento para o outro... como se aquele spread de revista fosse a solução urgente para pôr fim à guerra, resolver a fome ou trazer a vitória ao seu clube de futebol favorito no próximo jogo, potencialmente pondo um fim à panóplia de referências futebolísticas que assombravam as suas críticas aos nossos trabalhos. Como queríamos que todas estas coisas acontecessem, era então natural que se o professor quisesse 60 layouts nas próximas 72h, estaríamos a cometer um atentado contra a humanidade se não conseguíssemos apresentar pelo menos 20 exemplares realmente "frescos".

Uma tarde torna-se numa noite, uma noite torna-se numa directa, e uma directa torna-se em folhas A4, impressas a preto e branco sobre papel barato. Pousa-se as folhas cuidadosamente no chão, alinhadas e equidistantes, ao comprimento da sala, e a turma é convidada a deambular e a comentar. O professor lança críticas, queixa-se de ser pouco trabalho, e propõe mais. No final do ano, cada um de nós entregou um caixote de cartão com os exercícios que fez. Guardo o meu até hoje selado, uma espécie de caixa de pandora fechada com fita-cola.

Tudo era urgente, tudo era para ser rápido e tudo era para ser descartável e sempre parte de um processo infinitamente contínuo e, como tal, pertencia ao chão. Era neste ambiente de fervilhante dedicação à causa que nos debruçávamos sobre o trabalho por fazer, e vendíamos a nossa sanidade para o completar. Não dormir parecia ser algo intrínseco ao trabalho que tínhamos escolhido seguir... Algo aparentemente banal, em que dormir mais de seis horas por dia era estar a deitar horas de trabalho fora. Era encarado com algo normal haver semanas seguidas em que fazíamos três directas, às vezes quatro, sempre para exercícios, sem importância, dimensão ou realização pessoal. Mas alguns de nós — eu entre eles — víamos aquilo como verdadeiramente importante.

O segundo personagem entra sob forma de um conjunto de observações que fui fazendo ao longo desse mesmo ano. Deliciado com as aulas do professor Mendonça e a sua narrativa de que poderia encontrar inspiração nos mais improváveis cantos da cidade, decidi ocasionalmente ir a pé para as aulas. O professor falava-nos de coisas para fazer enquanto passeávamos: contar o número de passos do nosso percurso; colecionar e catalogar azulejos por cor ou estilo; tirar fotografias a tipografias vernaculares; procurar ângulos em objectos e enquadramentos que nos sugerissem letras; observar os diferentes desenhos das portas e das janelas.

Para mim seria sempre uma viagem simples, de mais ou menos 2.5km por ruas familiares, mas repletas de casos para observar. Pelo caminho passava por duas escolas cujos estudantes passei a considerar.

Os primeiros estudavam culinária e, com a ajuda de um metro e oitenta de altura, curiosidade e um nariz enamorado pelo aroma a pequeno almoço quente, espreitava pelas janelas das cozinhas viradas para a rua para os ver trabalhar. Nunca compreendi a que horas eles começavam, mas a dedução diz-me que seria claramente mais cedo do que o horário ao qual eu estava disposto a acordar. Pelas janelas via estas pessoas andarem de um lado para o outro, reunirem-se entre si, tentarem superar o que já sabiam… Por um lado tenho a noção de que estava a vê-los com lentes cor de rosa. Por outro lado, é preciso gostar mesmo de cozinha para decidir ativamente gastar anos da nossa vida a estudar e aprender a cozinhar ao nível a que eles o fazem. A culinária sempre foi sempre fonte de inspiração — as metodologias de trabalho de pessoas como Virgilio Martínez ou Musa Dağdeviren e as ideias de Jeong Kwan ou Ferran e Albert Adrià são transversais ao design. Finalmente, ponderando o ritmo competitivo ao qual estas pessoas trabalham e pondo de lado a minha epifania parcialmente causada pela falta de pequeno almoço, rapidamente acelerava o meu passo para chegar mais rapidamente à sala e começar eu mesmo a trabalhar.

Os segundos estudavam música, e não seria tanto de manhã como durante a noite que os ouviria. A Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo promovia todas as terças noites de jazz no seu café. Primeiro fui lá de arrasto, a convite de amigos, sem saber muito bem onde me estava a meter, mas toda a gente me falava de ir ouvir jazz pela noite dentro. Com o tempo, encontrei-me cada vez mais a explorar a escola, e estes encontros que provar-se-iam oportunidades para vaguear pelas salas e corredores do antigo palacete que dava casa à ESMAE, livremente pela calada da noite. Era por entre estes corredores mal iluminados e geralmente frios que, mesmo sendo três da manhã, haviam salas abertas com estudantes a praticar nos seus instrumentos, numa dedicação imensa pela noite dentro. Acabei por tomar gosto a estas terças-feiras, e respeito por quem até terça à noite estava nas salas a melhorar.

Acho importante compreender porque é que estas ideias têm apelo para algumas pessoas. Isto ligava-se facilmente com a visão distorcida, fanática e estranhamente competitiva de um mundo no qual, quando encontramos aquilo que queremos fazer, devemos entregar-nos de corpo e alma de maneira assumidamente e necessariamente pouco saudável e em que o melhor que podia acontecer era sangrar dos dedos como o Miles Teller no Whiplash (2014).

Com o passar dos anos aperfeiçoei as proporções concretas para tirar o café americano ideal, resultado de noites a fio a fazer o que quer que fosse que eu andasse a fazer. Planeio um copo com quatro expressos, demasiado açúcar, leite de arroz se houver espaço para a manobra, verto o equivalente a uma chávena de café pelo caminho, e sobrevivo durante o resto da manhã.

Em simultâneo, comecei a questionar aquilo que eu próprio queria retirar daquilo que fazia e as directas começaram a perder frequência e longe ficava o sonho de fazer em 15 dias, 15 directas.

Dormir mais de 6h

Tenho uma amiga que, segundo me diz, nunca terá feito uma directa para trabalhar. Por um lado, penso para mim mesmo que isto parece ser impossível, que fazer directas faz parte do assinatura mensal do ensino superior, assim como pagar as propinas, queixar-se dos professores ou chegar atrasado a aulas teóricas. Por outro lado, admiro-a nesse aspeto — é alguém que mantém a sua vida organizada ao ponto de não precisar de mobilizar aquelas horas extra para deixar tudo em ordem, o que é também em si um importante exercício de design.

Diz-me que vou ter rugas aos 30 e que ela vai viver até ao 90.

De facto, há um argumento a ser feito sobre a saúde física e mental que advém de quando as fronteiras entre que queremos fazer e o nosso trabalho se tornam líquidas. É difícil manter uma distinção saudável entre vida pessoal e trabalho quando se trata daquilo que queremos fazer. Por isso aceitamos ter de fazer o sprint, ficar acordado, dedicar o nosso tempo livre ao trabalho, e sacrificar outras coisas que possamos querer. Na minha opinião, se vamos dedicar esse tempo, ao menos que seja para melhorar e amadurecer os nossos próprios valores e objectivos, e não para fazer trabalho para deitar ao lixo quando estiver acabado.

Eventualmente larguei a ideia de que era preciso vender as minhas horas de sono por uma mão cheia de impressões a preto e branco espalhadas pelo chão de uma sala de aula. Em vez disso guardo essa ficha de troca para situações em que a procrastinação tomou proporções bíblicas (outro grande problema ainda por resolver). Não a melhor conclusão, é uma na qual estou a trabalhar. Os tempos em que namorava a ideia de dar o corpo pelo trabalho e em que achava que se queria evoluir tinha de de sacrificar sono sistematicamente, finalmente passaram (mesmo que ainda tenha as horas de sono todas trocadas).